Um processo seletivo Fantástico!


“Não sei exatamente quando, mas a ideia rondava a minha cabeça há tempos. Eis então que nossa última recepcionista pediu para sair e o assunto foi colocado em pauta numa reunião com meus dois sócios. Já havíamos aventado a respeito de mudar a faixa etária do cargo e achamos que aquele era o momento perfeito. Isto foi em meados de maio. O engraçado, e ao mesmo tempo curioso, foi que o Alisson, nosso gerente administrativo, perguntou se a idade seria perto dos 50.

– Opa! Como assim?! Estamos falando de pessoas mais velhas e aposentadas. Só que eu, o Sandro e o Maurício estamos quase lá! 46, 47 e 49 são os nossos números. Tá chamando a gente de velho?! Velho é a vovozinha!

Notamos que ainda nos consideramos extremamente jovens. Que ser quase um cinquentão hoje em dia, significa ter muito, muito tempo pela frente. De vida. De vida útil e produtiva. Sim, a ideia era boa. Temos tantos conhecidos, amigos, parentes que com mais de 60, 70 anos são absurdamente ativos, competentes, bem informados, capazes, talentosos, enfim…”que estão na pista”, como dizem hoje em dia. Só estão mais velhos; qual o problema?! Com a idade vem a maturidade, a experiência, a responsabilidade, o saber lidar de forma mais sensata com problemas e uma série de outros atributos que seriam perfeitos para alguém que quisesse fazer parte da nossa equipe.

Sabíamos também que o mercado de trabalho pode ser cruel com qualquer um, com pessoas mais velhas então, as coisas podiam ser ainda piores. Precisávamos colocar em prática nossa ideia. E assim fomos adiante. Só que para testar o quanto a nossa percepção sobre mercado x idosos estava correta, resolvemos fazer diferente do convencional. Nada de patrocinar postagens nas redes sociais ou anunciar em sites de empregos. Gostaríamos de ver como um simples post no Facebook seria capaz de movimentar a história. Dito e feito.


Para começar criamos um visual de anúncio de emprego no melhor estilo classificados de jornal. Os atributos necessários listados e para fechar a frase que falamos lá em cima: “Velha é a vovozinha!”. Passava pouco da hora do almoço quando cliquei em “publicar”. Ali um dos capítulos mais interessantes da nossa história de 24 anos começava a ser escrito. A reação foi em cadeia, imediata, instantânea! As curtidas e compartilhamentos começaram em uma progressão jamais vista, assim como a “marcação” de pessoas. Gente que viu o post e marcou possíveis candidatas.

Como é possível acompanhar em tempo real os acontecimentos, vimos o alcance do anúncio e sua pulverização aumentar a cada minuto. E a coisa não parou na internet. Candidatas começaram a telefonar e até mesmo aparecer pessoalmente na agência. Algumas incrédulas, achando que pudesse ser algum tipo de pegadinha. Amigos mandaram mensagens via Whatsapp e e-mail sugerindo mães, tias, irmãs, avós, conhecidas, etc. Em dois de  anúncio os números já eram impressionantes e quando completou 72 horas no ar fomos obrigados a parar. Seria impossível avaliar os quase 500 currículos que haviam chegado até aquele momento.


Matérias em blogs, sites, pedidos de entrevista de emissoras de rádio e tv, comentários no site e uma série de outros eventos nos fez confirmar que encontrar colocação no mercado de trabalho após uma certa idade não é apenas “obviamente” difícil; é quase impossível.

Partimos então para hercúlea tarefa de filtrar, selecionar e avaliar os currículos, que mesmo após o término do processo de seleção não pararam de chegar. No fim passaram dos 1.700. Peneirando por dias, com pessoas exclusivamente dedicadas à tarefa, chegamos em um grupo menor. A partir dele começaram as entrevistas em si. Ali começava mais um capítulo de aprendizado e conhecimento das pessoas. Uma sequência de causos e histórias de vida de gente comum, de gente como a gente, de gente atrás mais até que de um emprego, mas de se sentir viva.


Ao contrário das entrevistas anteriores para o cargo, este processo mostrou o quanto as candidatas queriam falar. Sim, falar sobre suas vidas, sobre o mercado de trabalho, sobre o preconceito com a idade, sobre tudo. Agradeciam o simples fato de estarmos oferecendo uma oportunidade de trabalho; de estarmos pensando “nelas”. Isso nos tocou profundamente: nós é que gostaríamos de agradecer.

Aposentadoria ínfima, saída precoce do mercado de trabalho, falta de capacitação, problemas pessoais, planos que não deram certo, doenças, família, enfim, os motivos por trás dos currículos de cada candidata eram os mais variados, mas para todas elas o fator principal na busca da vaga era: ainda tenho muito a produzir nesta vida!


Neste meio tempo fomos procurados por uma repórter do Fantástico; sim, a história da vaga realmente havia viralizado. Ficamos extremamente felizes com o contato, afinal, muito mais que pela exposição (bacana, claro) da agência, eles queriam mostrar em rede nacional justamente aquilo que estávamos vivenciando com as candidatas. O desemprego, a crise econômica, a expectativa de vida, etc. Por três dias a equipe ficou em Curitiba, dentro da Zero Cinco e vivenciou todo o período final da seleção. Tivemos o prazer de compartilhar com o Brasil essa bela história. De mostrar que nossa agência está cada vez feliz por seguir o propósito de “fazer o certo de maneira diferente para fazer a diferença”! Ficamos honrados de fazer parte de uma história ao mesmo tempo tão bonita e tão triste, mas certos de saber que de alguma forma, ajudamos pessoas, incentivamos empresários e demos um pouquinho de voz a gente que só está atrás de oportunidade de trabalho. Em nosso caso, a escolhida, a Ivone, está feliz; muito feliz. E nós também! Fizemos a diferença. Fizemos a diferença!”

*André Montejorge, sócio e Diretor de Criação da Zero Cinco, contou esta história, mas ela tem o total envolvimento de seus amigos de faculdade, parceiros de toda esta história de vida e sócios de empresa Maurício Lima e Sandro Dória.